Artigo

Como a Palavra de Deus lida com os desejos do ser humano?

A Bíblia é atravessada por tumultos e conflitos de todas as formas de desejo. Longe de concordar com todos eles, ela vai falar duma purificação radical dos desejos mais puros, porque eles poderão dar à existência humana todo seu valor e toda sua força. Sabemos que na raiz de todos os desejos há uma indigência essencial e uma necessidade fundamental de possuir a vida na plenitude e a emancipação total do nosso ser. Isto é um dado da natureza humana consagrada por Deus. (Salmo 42. 2) O cristão que possui o Espírito de Deus vai aprender a seguir o “desejo do espírito”, procurando crucificar o desejo da carne que é a morte (Rom 8,6) com suas paixões e suas perversões (Gal 5, 24; Rom 6, 12; Rom 13,14; Ef 4, 22) e se deixar conduzir pelo Espírito (Gal 5, 16) Diz o salmista: “Fora de Ti, Senhor, não desejo nada na terra. Minha carne e meu coração se consomem, Deus, rochedo do meu coração, minha porção para sempre.” (Salmo 73, 25 s; 42, 2; 63, 2)

Jesus o Messias é possuído por um desejo ardente que só apaziguará pelo batismo e por sua paixão (Luc 12, 49 s), que é o desejo de glorificar seu Pai (Jo 17, 4) e de mostrar ao mundo até onde Ele pode amar seu Pai (Jo 14, 30). Mas, este mesmo desejo do Filho para o Pai é inseparável do desejo que o leva para os seus. Enquanto ele ia para sua paixão, desejava ardentemente comer a Páscoa com eles. (Lucas 22, 15)

Esse desejo divino duma comunhão com os homens, “Eu junto com ele e ele junto de Mim.”(Ap 3, 20) desperta no Novo Testamento um eco profundo. As cartas de São Paulo estão repletas do desejo do apóstolo para ‘seus irmãos tão amados e tão desejados’ (Fel 4, 1). Deseja ‘todos eles nas entranhas do Cristo’ (Fel 1, 8), sente o ‘ardente desejo de estar com os coríntios’ (2 Cor 7, 7), e ao mesmo tempo …‘o desejo de se despedir deste mundo e estar com Cristo, e morar junto ao Senhor’ (2 Cor 5, 8). O grito do ‘homem de desejo’, o grito do ‘Espírito e da Esposa’ do Apocalipse é “Vem Senhor!” (Ap 22,17)

Como podemos aprender a lidar com nossos desejos?

O Evangelho segundo Lucas no capítulo 4, 1-13 nos orienta com as três tentações enfrentadas por Jesus:
Primeira tentação: é a fome, o medo de faltar as coisas: comer, consumir, ganhar mais, satisfazer de qualquer jeito e a qualquer preço as necessidades imediatas: é o primeiro postulado diabólico. Jesus renuncia à tentação de apropriar-se imediatamente para ceder lugar à palavra, para deixar espaço para a comunicação e a partilha com os outros. Podemos ter fome, mas dentro do respeito à convivialidade com os outros. Uma refeição é humana se ninguém se lança na comida e prioriza a partilha. O ser humano à diferença dos animais pode dominar a satisfação das necessidades e se preocupar com a aliança com os outros. Portanto, o embate da primeira tentação é fazer aflorar o humano. SER GENTE HOMEM e MULHER.

A segunda tentação: se refere à glória, ao poder, ao reino, à posse, ao domínio das coisas pelo domínio sobre os outros. Jesus, ao contrário, entra na vida pública desarmado, sem espírito de dominação; na mansidão, pela única força da palavra. Entra de mãos limpas, pobre, vulnerável, como um irmão. O embate da segunda tentação é, portanto, viver em aliança, como irmãos, sem domínio. A fraternidade é o verdadeiro culto que se dá para Deus e para o qual Deus nos convida. SER IRMÃO IRMÃ. É o oposto do culto diabólico do poder.

Terceira tentação: é de ordem religiosa. O diabo usa a Bíblia. Ele convida o ser humano a ver a vida como um direito que ninguém, nem Deus poderia nos tirar. É a tentação de crer que somos os donos da vida e que Deus está ao nosso serviço, fazendo de conta que somos imortais. A ilusão de crer que nada pode nos acontecer porque somos imortais: corremos na estrada como loucos, fumamos e bebemos sem limites, nos drogamos sem pensar às consequências, poluímos o planeta sem pensar na geração futura, investimos em armamentos ou em pesquisas sem critérios éticos. Jesus, ao contrário, quer existir sem nada possuir, nada, nem ele mesmo. Ele recebe inteiramente a vida de quem ele chama de Pai. Ele a recebe como um dom gratuito como Filho. Um dom que ele cultiva e ao qual rende graça. SER FILHO FILHA DE DEUS

Desejar então na força do Espírito é em primeiro lugar trabalhar para a humanidade ser mais humana, participar em todos os esforços e empreendimentos de humanização e contra todas as forças brutais que nos rebaixam à animalidade. É reconhecer enfim que, os seres humanos não vivem apenas de pão, mas da partilha do pão e da palavra, do encontro e da solidariedade. Não há evangelização séria sem serviço ao mundo. Como Jesus curou os doentes, inclui os excluídos, traz os possessos para o bom senso, devolve a dignidade para cada um e cada uma, apela à justiça, à mansidão, ao perdão, à paz.

Desejar segundo o coração de Deus é seguir Jesus e em seu nome, reconhecer e convidar a fazer reconhecer a fraternidade fundamental que nos une a todos. Somos todos e todas irmãs e irmãos em Jesus Cristo, chamados a viver uma aliança sem dominação na alegria serena e desarmada do encontro e da partilha. Desejar segundo Deus é se sentir chamado a reconhecer a fonte que nos une em Deus Pai, em um Deus que oramos, a quem podemos nos dirigir sem medo e em toda confiança como o Pai Nosso.

MORTE

AT: O justo retirado da terra dos vivos, sua vida não perdeu o sentido.

Sua morte é um sacrifício expiatório oferecido voluntariamente para os pecados dos homens: por ela é o desígnio de Deus que se cumpre. (Is 53, 8.12)
NT: O Cristo veio e por sua morte triunfa da própria morte; a partir dele a morte muda de sentido para a humanidade nova que morre com Cristo para viver eternamente com Ele.

Sem o Cristo a humanidade estava mergulhada na sombra da morte. (Mat 4, 16; Luc 1, 79; Is 9, 1) As promessa das Escrituras se realizam graças a Cristo que nos libertou da Morte porque Ele fez sua, a nossa condição mortal. Anunciou aos apóstolos para que eles não se escandalizassem. (Mc 8, 31; 9, 31; Jo 12, 33; 18, 32) Para fazer a vontade do Pai, Ele se fez obediente até a morte, para cumprir as Escrituras. Como anunciou Isaias, Ele o Justo foi colocado no banco dos bandidos. Embora inocente, ele aceitou que sua morte tivesse a aparência dum castigo conforme a Lei. Teve um corpo semelhante o corpo de pecado. Deus O fez pecado por nós. Provando da morte como todos os pecadores (Heb 1, 18; 2, 8s; Rom 8, 43) desceu até os infernos para anunciar a boa Nova que a vida lhe seria devolvida. (IPedr 3, 19; 4, 6) A morte de Cristo se tornou fecunda como a morte do grão de trigo lançado na terra. (Jo 12, 24-32) Jesus morreu por nós, embora éramos pecadores, nos deu a marca suprema do amor (Rom 5, 7; Jo 15, 13; I Jo 4, 10) Morrendo por nossos pecados, ele nos reconciliou com Deus por sua morte. (Rom 5, 10) ao ponto que podemos receber a herança prometida (Heb 9, 15 s).

No reino de Deus que ele inaugurava, a morte recuou diante Daquele que era a Ressurreição e a Vida. (Jo 11, 25) Se tornou o primeiro nascido entre os mortos. (Col 1, 18; Ap 1, 15) Ficou claro que Nele a morte perdeu seu império sobre Ele. (Rom 6, 9) Ele liberou os homens da lei do pecado e da morte dos quais eram escravos (Rom 8, 2; Heb 2, 15) Novo Adão, Ele nos continha todos nele quando morreu na cruz. Batizados na morte de Cristo, somos sepultados com Ele na morte, configurados à sua morte.

Essa morte com o Cristo é na realidade uma morte à morte. Agora nos somos vivos, voltando da morte e liberados das obras de morte. Quem escuta a Palavra de Deus passa da morte à vida; não precisa ter medo da morte. Pois mesmo morto, Ele viverá. Tal é o embate da fé. Quem não crê morrerá nos seus pecados; o perfume do Cristo se tornando para ele odor de morte.

Quem guarda minha Palavra não verá a morte. (Jo 8, 51)

Cada dia, fazemos morrer em nós as obras da carne. Paulo, sem cessar em perigo de morte, morre cada dia, mas não é um sinal de derrota, porque ele carrega nele a mortalidade de Cristo, para que a vida de Jesus se manifeste também no seu corpo; está entregue à morte por causa de Jesus, para que a vida de Jesus seja manifestada na sua carne mortal; quando a morte faz sua obra nele, a vida opera nos fiéis que o escutam. Essa morte cotidiana atualiza a de Jesus. Sua morte é uma libação que tem valor de sacrifício aos olhos de Deus. Essa morte pela qual ele glorifica a Deus lhe vale a coroa de vida. Felizes os que morrem no Senhor. Que eles descansem dos seus sofrimentos.

Quem ressuscitou o Cristo Jesus dará também a vida a nossos corpos mortais. Por sua ressurreição entraremos num mundo novo, onde não há mais morte. (Ap 21, 4) Morrer para Paulo é um lucro. Ele tem pressa de revestir as vestes de glória dos ressuscitados, para que há de mortal nele seja absorvido pela vida. (2 Cor 5, 1-4; ICor 15, 51-53; Fel 1, 23).

Por: Xavier Uytdenbroek

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